Carcinoma Hepatocelular: O que você precisa saber

Da ameaça silenciosa à era da medicina de precisão

3,5%

Incidência anual em pacientes cirróticos no Brasil

59 anos

Mediana de idade ao diagnóstico no Brasil

78%

Dos casos ocorrem no sexo masculino

Agressivo e silencioso, o carcinoma hepatocelular (CHC) é o câncer primário de fígado mais comum, sendo responsável por 75% a 85% dos casos. Ele representa a terceira principal causa de morte por câncer no mundo e a maior parte dos diagnósticos está associada à cirrose e às hepatites.

Trata-se de um tumor frequentemente diagnosticado em estágios avançados, o que limita as opções de tratamento e impacta diretamente a sobrevida dos pacientes.

Fatores de Risco e o Cenário no Brasil

A grande maioria dos casos de carcinoma hepatocelular (90%) está associada à presença de cirrose hepática. As infecções crônicas pelos vírus das hepatites B e C estão envolvidas em mais de 80% desses casos.

O principal fator de risco é a cirrose hepática (em cerca de 80% dos casos), independentemente da causa. Além dela e das hepatites virais, destacam-se o consumo excessivo de álcool, a doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD), o diabetes, a obesidade e a exposição à aflatoxina

O Grande Desafio: Ultrapassar a Sofrida Realidade do Diagnóstico Tardio

Uma realidade preocupante no Brasil é o baixo acesso ao tratamento: apenas 38,7% dos pacientes diagnosticados recebem qualquer forma de terapia, e a mortalidade é significativamente alta, atingindo 60,5% dos casos. Ou seja, há um grande gargalo nacional com o diagnóstico tardio dos casos.

Isso ressalta a necessidade urgente de políticas públicas que ampliem o acesso ao diagnóstico precoce e a tratamentos especializados. O manejo do CHC deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar, com a participação de hepatologistas, radiologistas, cirurgiões, oncologistas e outros especialistas, para uma decisão individualizada e baseada nas melhores evidências disponíveis.

A Importância do Rastreamento: Alcançar a Meta do Diagnóstico Precoce

A vigilância do câncer de fígado baseia-se na ultrassonografia abdominal semestral, um exame de rotina fundamental para o acompanhamento atento de pacientes de risco. Essa estratégia torna o diagnóstico precoce plenamente viável ao detectar nódulos ainda pequenos (com ecogenicidade menor que a do parênquima cirrótico ao redor) e analisar seu tamanho, quantidade e relação com os vasos do fígado. Diante de uma suspeita, a confirmação agilizada com contraste endovenoso (em até 30 dias) estabelece o diagnóstico de CHC precoce e abre portas para tratamentos com altas taxas de cura.

Quem precisa fazer o rastreamento a cada 6 meses?

  • Pacientes com cirrose (qualquer que seja a causa);
  • Pacientes com hepatite C e fibrose avançada;
  • Pacientes com hepatite B (mesmo sem cirrose);
  • Pacientes com gordura no fígado (esteatose) e fibrose graus 3 ou 4.

Como é Feito o Diagnóstico?

O processo diagnóstico baseia-se em exames de imagem, como ultrassonografia, tomografia e ressonância magnética. Em um fígado cirrótico, qualquer nódulo novo é suspeito de malignidade até que se prove o contrário. O padrão de realce da lesão após a injeção do meio de contraste possibilita confirmar o diagnóstico de tumor primário.

  • Sistema LI-RADS

    Nesse contexto, o sistema LI-RADS destaca-se como um modelo radiológico consistente e amplamente adotado na prática médica para estratificar os riscos de câncer.

  • Biópsia

    A biópsia hepática fica reservada para casos em que os exames de imagem não são conclusivos ou para pacientes sem cirrose prévia.

O que fazer quando um nódulo é encontrado no exame?

Menor que 1 cm

Nódulos menores que 1 cm

Fazer acompanhamento com ultrassom a cada 3 ou 4 meses. Se o nódulo não crescer por 18 a 24 meses, o acompanhamento passa a ser a cada 6 a 12 meses.

Entre 1 e 2 cm

Nódulos entre 1 e 2 cm

Geralmente é indicada a biópsia (embora exista risco de resultado falso-negativo em até 40% dos casos).

Maior que 2 cm

Nódulos maiores que 2 cm

O diagnóstico pode ser confirmado por tomografia ou ressonância que mostrem o padrão típico do tumor (hipervascularização na fase arterial e clareamento/wash-out na fase portal/tardia).

Como a Doença é Classificada (Estadiamento BCLC)

Para escolher o melhor tratamento, as grandes sociedades médicas de fígado ocidental e oriental utilizam o sistema BCLC (Barcelona Clinic Liver Cancer), que avalia o tamanho do tumor, o funcionamento do fígado (avaliado pelo escore Child-Pugh), o estado geral de saúde do paciente (estado de performance) e os sintomas relacionados ao câncer:

0
Estágio 0 (Muito Inicial) Tumor único < 2 cm, sem sintomas e com função do fígado preservada.
A
Estágio A (Inicial) Tumor único ou até três tumores com até 3 cm cada, sem sintomas e com boa função do fígado.
B
Estágio B (Intermediário) Múltiplos nódulos no fígado, sem sintomas. Função hepática leve a moderadamente comprometida.
C
Estágio C (Avançado) Presença de invasão de vasos sanguíneos ou disseminação para fora do fígado. Função hepática leve a moderadamente comprometida.
D
Estágio D (Terminal) Paciente com capacidade funcional muito comprometida ou falência do fígado. Qualquer extensão do tumor ou função do fígado.

Tratamento do Carcinoma Hepatocelular

Os principais tratamentos para o carcinoma hepatocelular (CHC) dependem do estágio da doença, da função do fígado e da saúde do paciente, de acordo com a classificação de Barcelona (BCLC). As opções são divididas em três grandes grupos:

Tratamentos com potencial curativo

Reservados para estágios iniciais (BCLC 0 e A), quando o tumor está localizado.

  • Ressecção Cirúrgica Remoção da parte afetada do fígado;
  • Transplante Hepático Substituição do fígado doente por um órgão saudável;
  • Ablação Tumoral Destruição do tumor por calor (radiofrequência/micro-ondas) ou frio (crioablação), ideal para tumores pequenos.

Tratamentos locorregionais

Utilizados para tumores em estágio intermediário (BCLC B) ou como ponte para o transplante. Atuam diretamente no fígado, controlando o crescimento do tumor.

  • Quimioembolização (TACE) Aplicação de quimioterapia diretamente no tumor através de um cateter, seguida do bloqueio dos vasos que o alimentam;
  • Radioembolização (TARE) e Radioterapia Uso de radiação direcionada para destruir as células tumorais.

Tratamentos Sistêmicos

Indicados para doença avançada (BCLC C), quando há invasão vascular ou metástases. São medicamentos que agem em todo o organismo.

  • Imunoterapia e Terapias-Alvo: Medicamentos que ajudam o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater o câncer (como as combinações atezolizumabe + bevacizumabe ou durvalumabe + tremelimumabe), sendo a primeira escolha para a doença avançada.

Novas diretrizes

As novas diretrizes (BCLC 2025) destacam a importância da decisão multidisciplinar, considerando não apenas o tumor, mas também a complexidade do caso, a subjetividade e as emoções do paciente. O uso de terapias combinadas (por exemplo, TACE + imunoterapia) em estágios intermediários e avançados é uma área de crescente pesquisa, com resultados promissores, mas que ainda requer avaliação individualizada.

Carcinoma hepatocelular: da ameaça silenciosa à era da medicina de precisão.

Sim, se por um lado a doença impõe um sério desafio global, por outro lado, vivenciamos uma verdadeira revolução em seu manejo: o diagnóstico precoce em países como o Japão, que adotaram a vigilância como meta de saúde pública, avanços em biomarcadores, técnicas minimamente invasivas e, sobretudo, o advento da imunoterapia combinada alteraram drasticamente o prognóstico e a perspectiva de vida dos pacientes.

Referências Bibliográficas

  • European Association for the Study of the Liver (EASL). EASL Clinical Practice Guidelines: Management of hepatocellular carcinoma. Journal of Hepatology, 2018. [Disponível online].
  • American Association for the Study of Liver Diseases (AASLD). Hepatocellular Carcinoma: Prevention, Diagnosis, and Treatment: Guidance. Hepatology, 2018. [Disponível online].
  • American College of Radiology (ACR). Liver Imaging Reporting and Data System (LI-RADS). [Disponível online].
  • Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de fígado: detecção precoce. Rio de Janeiro: INCA, 2023. [Disponível online].
  • Heimbach J, et al. AASLD Guidance, Prevention, Diagnosis, and Treatment of Hepatocellular Carcinoma: a 2018 practice guidance. Hepatology, 2018.
  • Cazarez C, et al. Diagnosis and Staging of Hepatocellular Carcinoma. Clínicas de Medicina, 2017.

Hepato Blog

Câncer de fígado: sintomas, diagnóstico e tratamento

Câncer de fígado: sintomas, diagnóstico e tratamento

TL;DR — Pontos principais O câncer de fígado mais comum é o carcinoma hepatocelular (CHC), responsável por 75% a 85% dos tumores primários do órgão. […]

Colestase: entenda o que seus exames de fígado dizem

Colestase: entenda o que seus exames de fígado dizem

Receber um exame com fosfatase alcalina e GGT elevados costuma gerar mais dúvidas do que respostas. A primeira pergunta que vem à cabeça é: o […]

Fibrose hepática: o que é, sintomas e tratamento

Fibrose hepática: o que é, sintomas e tratamento

Hepatologia Você abriu o laudo do ultrassom e leu as palavras “fibrose hepática”. Ou fez uma elastografia e o resultado mostrou um fígado mais rígido […]

Perguntas Frequentes

Rastreamento — Quem precisa e quando? ▼

A vigilância do câncer de fígado baseia-se na ultrassonografia abdominal semestral, fundamental para pacientes de risco. Esta estratégia torna o diagnóstico precoce viável ao detectar nódulos ainda pequenos.

Quem deve rastrear a cada 6 meses?

  • Pacientes com cirrose (qualquer causa)
  • Pacientes com hepatite C e fibrose avançada
  • Pacientes com hepatite B (mesmo sem cirrose)
  • Pacientes com gordura no fígado (esteatose) e fibrose graus 3 ou 4.
Diagnóstico — Imagem, LI-RADS e conduta por nódulo ▼

O diagnóstico baseia-se em exames de imagem. Em fígado cirrótico, todo nódulo novo é suspeito de malignidade até que se prove o contrário. O sistema LI-RADS é o modelo radiológico de referência.

Conduta por tamanho do nódulo:

  • < 1 cm: Ultrassom a cada 3-4 meses. Se não crescer em 18-24 meses, passa para 6-12 meses.
  • 1 a 2 cm: Geralmente indicada biópsia (risco de falso-negativo até 40%).
  • > 2 cm: TC ou RM com padrão típico (hipervascularização arterial + wash-out portal/tardio).
Ultrassonografia Tomografia Ressonância LI-RADS Biópsia
Estadiamento BCLC — Classificação completa ▼

O sistema BCLC (Barcelona Clinic Liver Cancer) avalia tumor, função hepática (Child-Pugh) e estado geral do paciente para definir o melhor tratamento.

Estágios:

  • Estágio 0: Muito Inicial: Tumor único < 2cm, sem sintomas, função preservada.
  • Estágio A: Inicial: Tumor único ou até 3 com 3cm cada, boa função.
  • Estágio B: Intermediário: Múltiplos nódulos, sem sintomas, função leve-moderada.
  • Estágio C: Avançado: Invasão vascular ou disseminação extra-hepática.
  • Estágio D: Terminal: Capacidade funcional muito comprometida ou falência hepática.
Tratamento — Curativo, Locorregional e Sistêmico ▼

Com potencial curativo (BCLC 0 e A):

  • Ressecção cirúrgica — remoção da parte afetada.
  • Transplante hepático — substituição por órgão saudável.
  • Ablação tumoral — radiofrequência/micro-ondas para tumores pequenos.

Locorregionais (BCLC B):

  • Quimioembolização (TACE) — quimioterapia direta no tumor + bloqueio vascular.
  • Radioembolização (TARE) — radiação direcionada.

Sistêmicos (BCLC C):

  • Imunoterapia combinada — atezolizumabe + bevacizumabe (1ª escolha).
  • Durvalumabe + tremelimumabe — novas combinações.
Últimas Diretrizes — Decisão multidisciplinar ▼

As novas diretrizes BCLC 2025 destacam a importância da decisão multidisciplinar, considerando não apenas o tumor, mas a complexidade do caso, a subjetividade e as emoções do paciente.

O uso de terapias combinadas (ex: TACE + imunoterapia) em estágios intermediários e avançados é área de crescente pesquisa, com resultados promissores.